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Artigos de Opinião - A Outra Versão
Quem duvida?
O mês de Agosto chegou ao fim e não deixou quaisquer saudades. Coincidindo, em regra, com a estação seca, não se pode dizer, em rigor, que não houve notícias. Claro que sim, mas não foram boas. Como se costuma dizer, “um mal nunca vem só”. Desde furacões nas Caraíbas e no Golfo do México até inundações no Reino Unido e na China, de tudo aconteceu. Para não falar, claro, nas guerras do Iraque e Darfur e na fome endémica em África.
Também, financeiramente, o Mundo não esteve bem. As “bolhas” especulativas passaram para segundo plano perante a enorme crise que se instalou globalmente em consequência da “subprime” dos mercados de fundos de investimento imobiliários americanos. Confrontado com os enormes riscos de insolvência desses fundos e a possível corrida aos bancos – o espectro da Grande Depressão, de 1929, continua a assustar os americanos – o FED rapidamente deliberou uma baixa das taxas de juros para tranquilizar os mercados, o que, em grande parte, foi conseguido; embora o problema dos citados fundos imobiliários continue bastante ameaçador, mormente para instituições financeiras europeias que tinham grandes participações de produtos estruturados (derivados ou com grande peso) daqueles fundos. E de tal sorte o problema é grave que já levou alguns especialistas a aventarem a possibilidade de o BCE também poder baixar a taxa de referência europeia ou, pelo menos, manter o seu valor actual.
Mas as notícias de Agosto na Europa revelaram, entre outros factos, que a actividade económica na zona euro teve um decréscimo no segundo trimestre de 2007. Esta desaceleração é atribuída à quebra do investimento das empresas, o que não se verificava desde 2002. Certamente, o mesmo se verificou com a actividade económica portuguesa, sobretudo pela quebra de encomendas às empresas nacionais, dado o nosso assinalável grau de exposição relativamente aos nossos parceiros europeus. Tudo isto é habitual e não tem, propriamente, nada de excepcional.
Por isso, não ficámos surpreendidos quando, ontem, o INE publicou os seus dados sobre a confiança nacional relativa a Agosto do ano corrente. As confianças dos consumidores e dos empresários baixaram no último mês, o que, para os mais optimistas, deve ter constituído uma amarga surpresa. Todavia, devemos ter em conta que o indicador do clima económico tem vindo a demonstrar nos últimos meses uma tendência de crescimento relativamente a 2006.
Porém, deveras negativos, são os vários indicadores do desemprego e da produtividade. Quando ao primeiro problema social, cerca de 440.500 portugueses estão desempregados, ou seja 7,9% da nossa população activa. Só no último trimestre (terminado em Junho) o número de desempregados subiu 8,6% relativamente ao trimestre homólogo de 2006. Ou seja, mais 34.900 trabalhadores caíram na situação de desemprego, sendo 32.700 mulheres. Por isso, para nós, só com uma grande dose de cinismo e de hipocrisia é que a propaganda governamental pode continuar a falar de “novas oportunidades” ou de “igualdade de géneros”. Isto não é ser do “contra”. Basta ser independente e analisar os números e os indicadores do INE. Acaso este, embora tutelado pelo Governo, não é um organismo independente ou insuspeito?
Quanto à produtividade as notícias vêm da OIT, uma das organizações mais respeitadas mundialmente. Referente ao ano de 2006, o Relatório da OIT é demolidor para a nossa-auto estima. Num conjunto de 29 países (27 europeus, mais USA e Japão), Portugal ocupa a 21ª posição. Apenas oito países tiveram pior notação do que Portugal. O caricato é que esses oito países são todos da Europa de Leste e da ex-União Soviética. Que bela companhia!
Perante um quadro tão desanimador, não faltarão alguns, patrões e os comentadores do costume, logo, a agitarem a necessidade de maior flexibilidade laboral e a imputarem as culpas da situação aos trabalhadores portugueses. Mas, quanto a isso, estamos esclarecidos. Com um desemprego, que não cessa de aumentar, o que chamam de flexibilidade laboral? Quanto ao resto, os trabalhadores portugueses, quando devidamente organizados e dirigidos, são provadamente dos melhores do Mundo. Quem duvida?
Afonso Pires Diz
Presidente da Direcção do SNQTB
Coordenador da USI


