PublicaçõesDr. Afonso Pires Diz

Artigos de Opinião - A Outra Versão

O b’Ota abaixo

A notícia dada pelo Governo, de que iria estudar outra alternativa à Ota para a localização do novo aeroporto de Lisboa, que os lisboetas manifestamente não desejam, e que, por esse motivo, suspendia por seis meses o projecto da Ota, não nos alegrou. E não alegrou por dois motivos. O primeiro, porque o Governo suspendeu a obsessão Ota e não a abandonou. Há quem diga que o Governo está refém de vários compromissos assumidos com muita gente, o que é muito mau.

A segunda razão da nossa tristeza foi motivada pelo chinfrim dos partidos da oposição que viram neste medida um recuo do Governo, o que, na sua opinião, só pode ser entendido como uma derrota governamental. Ao fim e ao cabo, por enquanto, não há nada para festejar. Não estamos livres de novo assomo de teimosia do Executivo e voltarmos a ficar muito apreensivos. Por outro lado, a decisão governamental não foi fruto do mérito inequívoco da oposição. Não tendo apresentado quaisquer alternativas concretas a oposição contentou-se com o b’Ota abaixo.

O Governo cedeu, sim, às reticências do senhor Presidente da República que muito bem espelharam o sentimento da sociedade civil nesta matéria.

Claro que há quem pergunte, como é possível que a opção Ota tenha sido tomada num Governo de Cavaco e seja agora o próprio Cavaco a “obrigar” a mais estudos e a haver muito maior ponderação nesse investimento tão estratégico. A essas pessoas lembramos a época de Cavaco. Quando o seu governo decidiu construir a Ponte Vasco da Gama os ambientalistas fizeram um tremendo barulho e o PS deu uma “ajudinha”. Porque era um atentado ao santuário ou ecossistema constituído pelo estuário do Tejo e suas zonas ribeirinhas alagadas. Choveram muitas queixas em Bruxelas e nos tribunais.

Quando Cavaco estudou o dossier Ota, verdadeiramente nada decidiu. Apenas, para não ouvir as vozes dos ambientalistas, se limitou a uma aprovação de princípio que, na prática, mais não era do que um simples adiamento. A decisão “a doer” seria sempre tomada por um governo que viesse a seguir. E é nesta fase que nos encontramos.

Por isso é necessário que haja muita seriedade nesta decisão. Com efeito, o futuro tem muito a ver com o binómio constituído pelo novo aeroporto, se necessário, e pelo TGV. Não podem ser decisões ligeiras. Sobretudo porque os interesses do País nem sempre coincidem com os interesses dos lóbis autárquicos e dos empreiteiros de obras públicas. Por outro lado, é bom não esquecer que, qualquer que seja a solução, a necessidade de uma nova ponte situada entre a Vasco da Gama e a 25 de Abril colocar-se-á inevitavelmente.

Finalmente, reiteramos a necessidade de ninguém tirar dividendos políticos da solução escolhida. Temos que fomentar a coesão nacional, porque somos um país endividado e pobre. Não podemos enfileirar no “bota abaixo” militante. Temos que ser inteligentes e positivos.

Afonso Pires Diz
Presidente da Direcção do SNQTB
Coordenador da USI