PublicaçõesDr. Afonso Pires Diz

Artigos de Opinião - A Outra Versão

O Pântano da Ota

Reinava o Rei D. Dinis, o Lavrador. E, de tantas medidas que lhe são atribuídas, reza a História, que El-Rei mandou semear o pinhal de Leiria e o pinhal de Azambuja, tendo, com os terrenos confiscados aos nobres e conventos, efectuado a primeira reforma agrária da nossa História. Tendo acarinhado a Ordem de Cister, criado a Ordem de Cristo e nacionalizado a Ordem de Santiago, o primeiro rei nascido em Lisboa estendeu a sua régia administração aos mais variados e longínquos domínios.

Concretamente, sendo os pântanos locais propensos às pestes mandou construir diques nos rios para evitar inundações e assorear muitos locais onde se verificavam empoçamentos de águas e abrir canais para o vazamento das mesmas.

Foi assim que nasceu a ribeira da Ota quando o pântano do mesmo nome foi mitigado. Na vizinha Azambuja, vila régia, mandou plantar o pinhal das Virtudes, consolidando os seus areais e aluviões.

Por razões bem conhecidas, a Ota e os seus terrenos estão hoje na ordem do dia. Mas poucas pessoas se lembram que, de facto, a Ota foi, e em certa medida ainda é, um pântano. Por ter terrenos quase planos a Vila Nova da Rainha (Santa Isabel) foi um dos berços da aviação portuguesa. Com os aviões a hélice foi construída a base militar da Ota. Com o aparecimento da propulsão a jacto as distâncias necessárias para descolagens e aterragens passaram a ser maiores e, por isso, tais manobras eram rodeadas de severas precauções tanto mais que a Serra de Montejunto fica próxima e a respectiva cordilheira gera um sistema climático específico. Todas as pessoas que se interessam pela aviação sabem que a única aproximação, sem problemas, à pista da Ota é a que segue, aproximadamente, a direcção Sul - Norte. A aludida pista da base da Ota pode ser prolongada nesse rumo. Qualquer expansão noutra qualquer direcção é praticamente impossível. Depreende-se, assim, que a projectada implantação de um novo aeroporto nesse local, com tantas limitações, é desaconselhável.

Do ponto de vista do investimento público será um lamentável desperdício o dinheiro que se aplicar nesses terrenos (agora ainda mais caros, em consequência da especulação de que têm sido objecto). Quem ganha com essa imoral especulação? Não sabemos, ao certo. Mas o importante é que todos nós, cidadãos contribuintes, perdemos. Haja decoro.

O famoso repasto do senhor Ministro das Obras Públicas na Ordem dos Economistas tem sido objecto dos mais veementes protestos. As infelizes razões por si aduzidas foram completamente erradas e descabidas. Na verdade, Sua Excelência acabou por dar razão aos que defendem a manutenção, por muito tempo, do aeroporto da Portela, a servir como principal porta de entrada em Portugal.

Defender o investimento do novo aeroporto para a Ota por razões ambientais é um erro crasso. Quem conhece o local, situado em pleno estuário do Tejo, sabe que a avifauna é abundantíssima e que a zona é das mais propensas a nevoeiros. Para além disso, é atravessada por importantes redes eléctricas de abastecimento em alta alta-tensão. Quase tudo desaconselha a Ota. Ao invés, para um novo aeroporto, se nos provarem que é necessário, as condições mais favoráveis situam-se na margem sul do Tejo. Aí locais não faltarão, se houver decência e razoabilidade.

PS – Hoje, 30 de Maio, foi dia de greve-geral. Tão habitual e restrita, como sempre. Alguém ganhou com a sua realização?

Afonso Pires Diz
Presidente da Direcção do SNQTB
Coordenador da USI