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Artigos de Opinião - A Outra Versão
A propósito de impostos...
Há poucos dias, indo e vindo de Espanha, constatámos pessoalmente o que já conhecíamos através da imprensa: os portugueses fazem as suas contas e, cada vez mais, preferem ir às compras na Espanha fronteiriça. Vão em viaturas espaçosas, adquirem o que necessitam e abastecem-se do combustível necessário para vários dias, economizando, assim, milhares de euros. Em Estremoz, onde parámos, confirmámos com os nossos olhos esta amarga situação, que se repete de Norte a Sul do país.
O estado do nosso comércio é, por isso, dramático. É evidente que o facto relatado é apenas mais uma consequência do decretado aumento do IVA (e da generalidade dos impostos) em vigor desde Julho de 2005. A toda esta parafernália fiscal juntou-se o aumento do custo do petróleo bruto nos mercados mundiais. Os analistas de economia bem nos avisaram do quadro dramático que iríamos encontrar. Não é preciso ser economista ou médico para prever que o doente Portugal pode morrer da cura.
E, por falar em saúde, constatámos, recentemente, no consultório clínico onde vamos habitualmente, a escassez da sua clientela. Indagando o que poderia ter acontecido, fomos, amigável e francamente, informados que a razão era meramente económica. Os clientes continuam doentes mas já não têm posses para pagar as suas consultas. Por este motivo, as salas de espera dos consultórios dos médicos estão reduzidas a clientes em situação de aflição. Os demais doentes transferiram-se para as consultas e urgências dos superlotados hospitais públicos. Muitas vezes estes hospitais não têm qualidade no atendimento e cuidados médicos. Todos nós sofremos com isso. Todavia, essa situação continua por resolver, apesar de ser muito antiga.
Mais dois testemunhos pessoais, ambos recentes. O primeiro foi por nós experimentado quando na semana passada fomos a um frequentadíssimo e bem conhecido restaurante de Lisboa, situado no início da Av. da República. Havia meses que não íamos a esse estabelecimento de qualidade. Ficámos surpreendidos com os poucos clientes que estavam à hora de maior afluência. Mais uma vez perguntámos o que se passava. Delicadamente fomos informados pelo solícito empregado que esta era há tempos a situação normal. A carteira do cliente não é elástica.
O segundo testemunho ocorreu ontem, quando passávamos pela Praça dos Restauradores em direcção à Praça do Rossio também conhecida pelo nome de Praça D. Pedro IV. Neste percurso fomos abordados por inúmeras pessoas pedindo esmola, o que não sendo uma situação nova, nos surpreendeu pelo seu elevado número. Trata-se de gente portuguesa como nós, numa situação de envergonhada e absoluta necessidade.
São casos como estes que espelham o nosso actual e frustrante quotidiano. Enquanto isso, os governantes e gestores públicos passeiam-se nos “seus” automóveis topo de gama. Vivem à custa do erário público, isto é, à nossa custa e ainda se consideram mal pagos! Pior. Quanto mais jovens e incompetentes mais se aboletam nos palácios e pousadas públicas. Consideram-se, infelizmente, donos do património nacional mais luxuoso. Até quando?
Vejamos ainda um outro caso exemplar, abundantemente referido na imprensa escrita. A administração do Banco de Portugal acaba de “actualizar” a frota de viaturas ao seu serviço, gastando com isso mais de um milhão de euros. E, na mesma tímida imprensa, vem referido que o Governador do mesmo Banco ganha mais que o Presidente da Reserva Federal dos E.U.A., Alan Greenspam. Não lemos ou ouvimos qualquer desmentido destes casos infelizes. Ainda nos lembramos do comportamento indecoroso do Governador Vítor Constâncio, após a indigitação e início de funções do Governo PS, liderado por Sócrates, pintando de negro e pessimismo o estado da nossa economia. Teve agora a sua recompensa ao ser reconduzido em novo mandato.
A este comportamento hipócrita dos “gestores públicos”, nos quais também incluímos os que pretensiosamente nos governam, responde o povo gemendo e revoltado com tão pesado custo de vida. Só assim se compreende a eleição do “salvador” Cavaco Silva, à primeira volta. Mas, sobretudo, assim deve ser entendida a votação histórica de um milhão de portugueses que votou Manuel Alegre. Este candidato corporizou a nossa descrença nas cliques e máfias partidárias e movimentou uma parte significativa da sociedade civil. Achamos que este movimento independente, sendo um salutar estado de espírito, a bem da nossa democracia, não pode parar.
Afonso Pires Diz
Presidente da Direcção do SNQTB
Coordenador da USI


