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Artigos de Opinião - A Outra Versão
Um E.T. esteve entre nós
Cristo disse: “O meu reino não é deste mundo”. E, em S. Marcos, pergunta aos seus discípulos: “E vós, o que pensais vós o que eu sou?” Após alguns instantes de silêncio, Pedro exclama: “Nós acreditamos que Tu és o Rei escolhido por Deus, o Messias prometido”.
Mergulhados no nosso quotidiano, cada vez mais material, não temos tempo para nos encontrar, para reflectir e, como agora se diz, fazermos a nossa introspecção. Como crentes, sempre pensámos que Deus está no meio de nós, em cada homem excluído, pobre ou doente. Em S. João, o “Discípulo Amado”, encontramos o que há de superior no Homem: o Amor! Inclusive, através de uma receita ou mandamento sublime: “Amai a Deus sobre todas as coisas” e “Amai o próximo, como a vós mesmos”. Não há preceitos mais importantes.
Mais. Ao longo da História, Deus enviou à Terra os seus mensageiros, os profetas. Sobretudo quando a Humanidade se desviava do Bem. Eram homens comuns, que deixaram tudo pelo Amor de Deus, d’Ele dando testemunho.
Ainda antes de subir ao céu, Cristo deu aos seus discípulos o último ou derradeiro mandamento: “Ide por todo o Mundo, pregai a Boa-Nova a todas as gentes”.
Quando há 26 anos, o Cardeal Karol Wojtyla foi eleito Papa, em 16 de Outubro de 1978, o Mundo ficou surpreendido e na expectativa. Quem era este discreto pastor de almas? Da distante Polónia, sob o jugo comunista, o que saberia do nosso mundo actual? Nós, os crentes e o povo, sabemos “são infinitos os desígnios de Deus”, ou que “Deus escreve direito, por linhas tortas”. Será que o conclave eleitor, assistido pelo Espírito Santo, se tinha enganado?
Porém, só o facto de o Eleito não ser italiano e diplomata da Cúria Romana era o primeiro prenúncio de um Mundo Novo, de uma Nova Igreja.
Atento aos sinais dos tempos e aos desígnios de Deus, rapidamente mostrou a razão da sua escolha, sendo mais interventivo do que qualquer Papa do nosso tempo.
Terá viajado muito e, para alguns mais mesquinhos, demasiado? Mas como poderia cumprir o derradeiro mandamento de Cristo se assim não fosse?
Acaso algum dos doze apóstolos morreu em Jerusalém? E quantas viagens fez S. Paulo? E quantas cartas escreveu? Não foi este Apóstolo o grande organizador do Cristianismo?
Karol Wojtyla adoptou os nomes dos dois apóstolos (João, o Evangelista do Amor e Paulo, o Apóstolo mais trabalhador) na linha da simplicidade de João Paulo I.
João Paulo II era, de facto, de outra galáxia, um verdadeiro E.T.. Deixou-nos com a mesma serenidade e a mesma inspiradora ternura que sempre teve.
Na linha do Evangelho, não foi por acaso que a sua primeira Encíclica foi a “Redemptor Hominis” (4 de Março de 1979) ou seja, a “Redentor do Homem”. Quem é o Redentor, senão Cristo? É claro que, para João Paulo II, Cristo não é um exclusivo dos cristãos, como não o fora para os doze Apóstolos ou como para S. Paulo que, sendo judeu, ficou na Hagiologia como o “Apóstolo dos Gentios”.
Toda a gente sabe do carinho que João Paulo II devotava aos trabalhadores. Como disse, tantas vezes, antes de ser padre era trabalhador. Foi primeiro trabalhador para ganhar a vida. Foi no meio dos trabalhadores polacos que recebeu o chamamento divino, o dom da vocação, tendo sido, após uma brevíssima formação, ordenado padre na clandestinidade. Durante mais alguns anos foi trabalhador por opção, isto é, “padre-operário”.
E foi no nonagésimo aniversário da histórica encíclica “Rerum Novarum” que publicou uma das maiores encíclicas de todos os tempos: a “Laborem Exercens”, que marca um estilo novo, mais concreto, da Doutrina Social da Igreja. Acima de tudo, sublinha o primado da Pessoa sobre as coisas e do trabalho humano sobre o capital.
No vigésimo aniversário da “Populorum Progressio”, João Paulo II publica a carta encíclica “Sollicitudo Rei Socialis” onde anatemisa igualmente o comunismo e o capitalismo, ambas doutrinas materialistas e desumanas. Datada de 30 de Dezembro de 1987 ela foi o “sopro de Deus” sobre a “Cortina de Ferro”. Com uma ressonância especial na pena de um Papa, vindo de um país escravizado, evidenciou, como nunca acontecera, a noção de “solidariedade” como motor de um desenvolvimento autêntico. Foi a inspiração para o nascimento do Solidariedade, confederação sindical da Polónia, vital na libertação do povo e nação polaca, que se espalhou como onda vencedora pelo Leste da Europa. O Muro de Berlim caiu depois, em 1989, e com ele o derradeiro símbolo da divisão da Europa e da sua libertação política.
Finalmente, no 1º de Maio de 1991, festa mundial do trabalho, João Paulo II publicou a carta encíclica “Centesimus Annus”. Isto é, cem anos depois da primeira encíclica “Rerum Novarum”, a Igreja, pelo seu Pastor, não só actualiza a sua Doutrina Social como apresenta questões inovadoras. Por exemplo, na área económica, o Papa lembra que hoje os factores de riqueza não são necessariamente a posse dos recursos naturais ou dos bens de produção (conceito marxista), mas a “propriedade do conhecimento, da técnica e do saber” e as “capacidades de iniciativa empresarial”.
Hoje, como nunca, existe um consenso mundial sobre este Papa. João Paulo II era um E.T. (Evangelista, como nenhum antecessor e o maior e mais admirável Trabalhador dos nossos dois séculos)!
No passado dia 2 de Abril de 2005, pela última vez, a “pomba da paz” voou, de mansinho, alva e pura, conseguindo o seu maior milagre. Crentes e não crentes sentiram que a Humanidade estava mais pobre. João Paulo II, o E.T., tinha ido ao encontro do Criador.
É este o preito dos sindicalistas livres e independentes.
Afonso Pires Diz
Presidente da Direcção do SNQTB
Coordenador da USI


